FLUXOS MIGRATÓRIOS: O MOTIVO DA VIAGEM NA PRODUÇÃO TEXTUAL DE JUDITH GROSSMANN
Pensar sobre a condição intrinsecamente estrangeira de várias personagens da ficção de Judith Grossmann pode conduzir o leitor à identificação de variáveis naquele elenco. No momento presente, o foco da atenção será dirigido para dois textos: o capítulo 5 – “Infância” – de Meu Amigo Marcel Proust Romance[1] e o capítulo 3 – “O século” – de Fausto Mefisto Romance[2]. Em ambos, focaliza-se a constituição da identidade de um sujeito, através das marcas da nacionalidade e da língua, embora se diferenciando quanto ao lugar ocupado pelo sujeito, em cada um dos textos em questão: narrador-protagonista, a voz feminina que narra todo o romance, no primeiro caso; e uma das personagens que integram a narrativa – o Barão, um dos pacientes especiais do Doutor Fausto – no segundo caso, pela voz do próprio Doutor, que assume o papel de narrador.
Entretanto, o elemento que permite integrar os dois textos num mesmo espaço, articulando-os em diálogo, refere-se à origem, sendo as personagens provenientes da Europa, da região de fronteira entre Rússia e Romênia. E dessa origem desentranha-se um aspecto comum, qual seja, a origem judaica, origem igualmente da escritora Judith Grossmann, que também descende de família procedente daquela região. Juntando-se a esses dois fios narrativos um outro, constante de depoimento da escritora, mas tecido numa zona limítrofe entre o biográfico stricto sensu e o imaginário, pode-se articular uma questão referente à identidade judaica, recorrente na ficção grossmaniana, quer de modo explícito, quer de modo mais oblíquo, por meio de itens que integram o acervo mitológico-ideológico-imaginário da escritora.
Como aspecto nuclear da identidade judaica em trânsito pelos textos de Grossmann, constituindo-se mesmo em um dos motivos por ela desenvolvidos – independentemente de tratar-se ou não de personagens com origem judaica na sua ficção – , situa-se o caráter nômade desse povo, marcado pelo exílio e pela diáspora.
No seu livro O Judaísmo, a escritora francesa de origem judaica Régine Azria, autora de muitos textos dedicados à história e ao estudo da questão do judaísmo, estabelece relações entre determinados aspectos ou etapas que se inscrevem na história do povo judeu e suas correspondentes matrizes bíblicas, tendo em vista que:
Mais que uma história ou um testemunho sobre uma época, o relato bíblico fornece os “materiais” a partir dos quais o judaísmo constituiu-se em um sistema de ações e de pensamento. Esses materiais consistem em quatro idéias fortes: o monoteísmo, o povo, a terra, a lei ou torah.[3]
No diálogo que se busca instalar entre o texto de Grossmann e suas referências, sejam elas bíblicas ou integrantes do universo judaico (cultural, ético, ideológico), o tema da terra destaca-se pela possibilidade de ser relacionado ao do exílio, elemento fundador de uma mítica judaica, que está no cerne de suas formas de expressão.
A interpretação religiosa do conceito de exílio relaciona-o ao não respeito dos homens à Aliança feita com eles por Deus. Considera-se o exílio, portanto, um castigo divino. A Bíblia refere-se a várias Alianças, mas a que se destaca como de maior dimensão é a Aliança do Sinai, firmada entre Deus e o povo reunido, conforme relatada em Êxodo 19, 24, e que se firma mediante uma teofania ou Revelação diante do povo reunido.
Partindo da etimologia do termo hebreu, do hebreu ivri, que significa aquele que passa, e recuperando a condição nômade do hebreu das origens, Régine Azria contrapõe à condição diaspórica a errância enquanto “uma modalidade de ser judeu, inscrita na própria etimologia do termo”[4]. Assinala ainda a tomada como modelo, por tradições posteriores, de personagens desprovidos de raízes territoriais (como Abel, o nômade; cf. Gênesis IV, 1-9) ou daqueles que renunciam a estas (como Abraão; cf. Gênesis XII, 1-4). Tais tradições “erigirão como símbolos os episódios em que o desenraizamento é percebido como sinal de desprendimento das coisas materiais, de recusa de compromissos citadinos e políticos”, confirmando que o povo judeu, como outros povos que têm origem mítica, realizou no deserto “a dura aprendizagem da liberdade”. O texto bíblico, porém, revelará o outro lado da errância, aquele representado pela ação fratricida de Caim, condenado a ser “errante e fugitivo pelo mundo”, por ter assassinado o seu irmão Abel (Gênesis IV, 1-16). Caim simbolizará “um exílio vivido no sofrimento, angústia e precariedade”[5].
É dessa perspectiva da inserção de uma vivência e de uma memória do exílio e da errância no imaginário coletivo do povo judeu que se pode examinar o trânsito de tal memória na ficção de Judith Grossmann, transformando-se em temas ambientados em espaço, tempo e personagens diversificados, que não guardam, na superfície textual, os indicadores explícitos a uma tradição ou a uma matriz judaica. As referências do universo judaico, manifestamente do universo bíblico, assomam sob a forma de imagens ou de itens reveladores de um modo de relação do sujeito com a realidade, de um estar no mundo, o qual se revela, constantemente, nas mínimas ações do cotidiano.
Dos vários textos da literatura de Judith Grossmann, aquele que trata da migração de populações oriundas da Europa de modo mais explícito e mais incorporado à trama é o Capítulo 3 do Fausto Mefisto Romance, intitulado “O século”. Apesar de não se nomear, é a migração de judeus antecedendo à Segunda Guerra Mundial que aí se narra, tendo como antecedente o afluxo de outros povos para a França, durante a Primeira Guerra Mundial. Através da personagem identificada como Barão, que, em seus colóquios com o Doutor Fausto – de quem é um paciente especial – narra a sua origem, por meio da história de seus avós e de seus pais, recompõem-se dois fios que integram o panorama dos fluxos migratórios de povos, especialmente do povo judeu, com suas naturais conseqüências. Em primeiro lugar, o Barão conta a história dos seus avós que, residindo em Paris à época da Primeira Guerra Mundial, testemunharam o trânsito dos soldados, na movimentação própria a épocas de guerra, com suas conseqüentes miscigenações lingüísticas e culturais. Dentre as miscigenações operadas com o contato entre os povos, ganha relevo na narrativa o processo ocorrido com a língua – partindo da língua francesa e abrangendo em seguida outros contatos lingüísticos verificados nos trânsitos migratórios desencadeados pela guerra:
Em segundo lugar, conta o Barão a história da emigração de seus pais, que saíram da França com destino ao Brasil, em período pouco anterior à Segunda Guerra Mundial. No cenário alusivamente posto na narrativa, qual seja, um cenário marcado por guerras e perseguições aos judeus – sem que esse povo seja especificado através da nomeação, mas sim através de referências históricas ou de alusões – , o pai do Barão assume papel de fundamental importância para o afluxo de compatriotas ao Brasil:
O principal em que meu pai se engajou foram as fugas internacionais, e isto durou muito para além da guerra (...) Meu pai, incansável, conseguindo vistos de entrada, vistos de saída, vistos de trânsito. Mais histórias se introduziam nos meus ouvidos de criança, pelos que aqui chegavam. A vida deles era contar estas histórias. As fugas eram movidas a dinheiro, a ouro, a jóias, a maços de cigarro, a chocolate, envolvendo autoridades e pessoas de todo tipo, cônsules, oficiais, soldados, carregadores, porteiros de hotel. (...) A palavra que eu mais ouvia era carimbo, carimbou, não carimbou. O itinerário até hoje sei de cor: Paris, Lourdes, Marselha, Perpignan, Cerbère, Port Bou, Barcelona, Madri, Lisboa. E depois, a liberdade! Estados Unidos! Brasil! (p.112)
Da leitura do trecho do Fausto Mefisto Romance acima recortado, pode-se observar a superposição entre os fatos narrados pelo texto ficcional e as informações contidas no mapa da migração judaica esboçado por Azria. As personagens de Grossmann aqui destacadas – o Barão, seus pais e avós – percorreram o mesmo itinerário das populações judias registrado pela história, igualmente provenientes da Europa oriental.
Para além do diálogo entre o relato historiográfico e o texto ficcional, novo texto pode ser incluído na cena da migração judaica. Trata-se do “Depoimento” da escritora Judith Grossmann, que assim narra:
Um belo dia, a família muito grande, meu pai veio, e depois ele trouxe tios, enfim, todo mundo foi para Campos. E aí um tio que mantinha comigo longas conversações (...) que havia lutado na Primeira Guerra Mundial, e cujas fotos, vestido de soldado, eu prezo muito, que gostava de ouvir a BBC de Londres no rádio Westinghouse (...) Que meus pais, eles nasceram russos e se tornaram romenos pela guerra e mudaram de língua. (...) É inacreditável, o que eles trouxeram da Europa naquelas malas de navio, enormes, coisas bordadas, riquíssimas.[6]
Não se trata, aqui, de estabelecer a primazia do texto autobiográfico, colocando-o em posição de origem ou antecedente do texto ficcional. De uma outra perspectiva, pode-se empreender a leitura do “Depoimento” também como uma construção, e, assim, onde estaria a diferença entre os textos apresentados como diferenciados? Qual a diferença, por exemplo, entre o trecho citado do “Depoimento” e o trecho a seguir, extraído do Capítulo 5 – “Infância” de Meu Amigo Marcel Proust Romance?
Depois voltávamos a Briceva e começávamos a atravessar de novo a Europa em direção ao Brasil. Meu pai capitaneava. Ele descobrira primeiro o Brasil, que trocara pelos Estados Unidos, e depois fora trazendo os outros, indo inclusive buscar minha mãe, casando-se com ela lá mesmo. (p.164-165)
Insere-se, este texto, num momento da narrativa em que esta assume nitidamente seu caráter de narração. Ou seja: trata-se, então, não mais da viagem que ocorrera no plano da ficção, integrando o tecido romanesco, mas da viagem que ocorre através do relato, do contar a história através da voz do pai, ele próprio, capitão desse navio, descobridor de nova pátria, salvador da família, iniciador de uma linhagem de brasileiros de primeira geração, legando todo esse passado, toda essa saga à filha, agora depositária de uma memória e de uma veia narrante.
Por outro lado, a identidade judaica conserva em si algo como uma memória milenar, que se manifesta através da concretização, no próprio cotidiano e suas ações, dos arquétipos que necessitam ser preenchidos de sentido. Considerando-se agora a identidade da escritora Judith Grossmann, pode-se constatar que também ela não ficou imune à manifestação de tais arquétipos, corporificados ficcionalmente através dos temas recorrentes em seus textos. Desse modo, os fluxos migratórios claramente delineados no Fausto Mefisto Romance, atendendo a um contexto histórico específico, qual seja, dos trânsitos de populações judias entre regiões diversas da Europa e da Europa para a América, podem assumir uma outra forma mais difusa, menos explícita, em construções que tangenciam a alegoria.
Quanto à função exercida pelo pai do Barão neste mesmo romance (Fausto Mefisto Romance), isto é, de principal articulador das fugas internacionais de judeus, empenhado quer em salvá-los do nazismo, na Segunda Guerra, quer em dar-lhes a oportunidade de emigrar para países que lhes oferecessem melhores condições de vida, é mesmo esta função que lhe concede o lugar de figura mítica, que o adorna de uma aura de agente salvador, unindo-se a uma linhagem de personagens grossmanianas convergentes, muitas delas, para uma figura de artista construída no espaço do seu texto. É ele – o artista – aquele que resgata, que salva, por exemplo, a linguagem de sua deterioração, ou os fatos do risco do esquecimento, preservados que ficam na sua memória. De que artista aqui se fala? Como contextualizá-lo?
A resposta a essa pergunta, buscada no contato com os textos de Judith Grossmann – e aqui tanto se pode falar de um conjunto da produção textual, de uma marca de estilo, de uma recorrência estilística a identificá-los, quanto de cada um, ou de vários, na sua singularidade – , remete o leitor para uma zona de limiar entre o imaginário e a herança cultural, suas marcas, precisamente inscritas nesse imaginário da voz articuladora do discurso, na qual se pode entrever o lugar de onde fala uma escritora de origem judaica. Nesse âmbito, a figura mítica de Moisés, habitante do acervo mitológico-histórico-cultural das gerações de origem judaica, como é o caso da autora em foco, funciona como arquétipo do salvador em dois sentidos: enquanto condutor do povo judeu na saída do Egito, episódio conhecido como o Êxodo; e enquanto escolhido por Deus, eleito para a missão de receber as tábuas da Lei, nas quais estariam inscritos os mandamentos da Lei de Deus. Ambos os sentidos podem ser entrevistos na figura de artista que se depreende dos textos grossmanianos, quer de modo mais direto, através de um elemento da trama, como é o caso do pai do Barão, agente condutor e salvador de judeus que emigraram da Europa (Fausto Mefisto Romance), quer de forma simbólica, extraindo-se como inerente à atividade do artista literário, do escritor, a possibilidade de inscrever na sua memória, para posteriormente detonar a escrita do seu texto, a história da sua origem, da sua ancestralidade, da sua família, do seu povo. É esse segundo modo de construção, aquele articulado pela voz feminina que narra em Meu Amigo Marcel Proust Romance, de modo particular no Capítulo 5 – “Infância”:
Em minha infância, vivi uma vida emprestada, não apenas dos meus pais, mas dos meus parentes, todas aquelas fotos que estão no Museu, porque se uma única se perdesse, eu teria falhado no propósito de minha vida. Eu vim para isso, para guardá-las. Para gravar no meu corpo e na minha mente cada palavra do que eles disseram, cada lembrança daqueles seres transplantados dos quais descendo. Porque eu não me esqueci de nada, sou como um aparelho com potência infinita de memória que captou e se sensibilizou com tudo. (p.160)
Um dos aspectos destacados por Grossmann no capítulo “O século” de Fausto Mefisto Romance, ou seja, o que aí denomina de babelização, decorrente do contato lingüístico propiciado pelos trânsitos entre povos diversos, encontra lugar de destaque no Capítulo 5 – “Infância” de Meu Amigo Marcel Proust Romance. Ao mesmo tempo em que tece uma descrição da língua portuguesa do Brasil falada pelos imigrantes russos e romenos, que representam, na trama do romance, seus ancestrais (pais e tios), a mulher que assume a função de protagonista e narradora no espaço ficcional focaliza a sua própria realização lingüística, através da herança recebida:
Nunca acabarei de falar sobre isso, eu preservei a maior parte das palavras que eles escolheram para combinar com o português, na exata combinação que os tem como autores, e se perdi algumas poucas delas, o céu tenha compaixão de mim, por elas ficarei procurando até que venha a noite completa. Não poderia conhecer melhor ocupação para a minha vida. (...)
Os fluxos migratórios transmutados no tema da viagem na ficção de Grossmann assumem diversificadas feições nos seus textos, cuja história narrada sintetiza-se num dado momento do capítulo “Infância” de Meu Amigo Marcel Proust Romance: “Para gravar no meu corpo e na minha mente cada palavra do que eles disseram, cada lembrança daqueles seres transplantados dos quais descendo” (p.160). Na expressão “seres transplantados”, utilizada para indicar a sua filiação genealógica, a narradora-protagonista evoca o caráter migratório da sua família e do seu povo, que pode superpor-se à voz autoral de Judith Grossmann, persistente construtora de viagens referenciais e simbólicas em seus textos, herdeira que é de uma tradição peregrina de errância.
Herdeira de um povo em diáspora, a escritora realiza uma produção textual que expressa elementos que integram o seu imaginário, o qual constituiu-se, na sua infância, pelas histórias ouvidas, pelo peso ou pela força de uma tradição que garante a identidade na dispersão e no exílio, fazendo-os similares entre si e, embora integrados na sociedade que passam a adotar como pátria, destacando-os em sua diferença, em sua alteridade.
[1] GROSSMANN. Infância. In:___. Meu Amigo Marcel Proust Romance. Rio de Janeiro: Record, 1997. p.155-189. Todas as referências a este texto são seguidas apenas do número da página após a citação.
[2] Id. O século. In:___. Fausto Mefisto Romance. Rio de Janeiro: Record, 1999. p. 89-125. Todas as referências a este texto são seguidas apenas do número da página após a citação.
[3] AZRIA, Régine. O Judaísmo. Bauru, São Paulo: EDUSC, 2000. p. 18 (Col. Humus).
[4] Id., loc. cit.
[5] Id., ibid., p. 53.
[6] GROSSMANN. Depoimento. Estudos; lingüísticos e literários, Salvador, Mestrado em Letras, UFBA, n.15, p.49, 62, 63, 1993.